Tudo sobre a 40ª edição do Rali Dakar

Pega-se nos mesmos e tudo recomeça. Seja nos carros, motos, camiões e quads, esse podia ser o lema da 40ª edição do Rali Dakar, uma prova que mostra cada vez mais vitalidade. Mas o ditado de “o que parece nem sempre é”, assenta aqui que nem uma luva. Se é verdade que a luta pela vitória em todas as classes se faz com as mesmas marcas e basicamente os mesmos protagonistas, muitas são os que apresentam novidades técnicas ou outro xadrez nas equipas de pilotos, tornando o descortinar de eventuais vencedores um complicado jogo de… adivinhação.

Carros: Peugeot, Toyota, Mini… e os outros         

No “tabuleiro” dos candidatos nos carros, voltamos a ter Peugeot, Toyota e Mini na linha da frente. A marca francesa quer despedir-se em beleza do Dakar com um “tri” dos 3008 DKR, vencedores das duas últimas edições.

Para 2018, o Peugeot surge na versão Maxi, com novas suspensões e vias mais largas (para o máximo regulamentar de 2400mm), aumentando as capacidades competitivas em todo o tipo de terreno. Stephane Peterhansel (FRA) tentará a oitava vitória nos carros (14ª no total). Contudo, em termos de marketing será mais “vendável” o triunfo de Sebastien Loeb (FRA) na hora da despedida da Peugeot no Dakar. Ou até, de Carlos Sainz (ESP), que poderá fazer o último rali da carreira. Quem sabe, até de Cyril Despres (FRA), que deseja ser apenas o quarto homem a ganhar a prova nos carros depois de vencer nas motos. Haverá ainda mais um 3008 DKR (versão 2017) para o sheikh Khalid Al Qassimi (EAU).

Os 3008 DKR Maxi são favoritos, mas o “passeio” de 2017 pode não se repetir.

A Toyota acredita que é desta que consegue a tão desejada primeira vitória no Dakar. Descartado o projecto 4×2 que nunca correu, volta a apostar nas pick-up Hilux tirando partido de um regulamento menos penalizador para os carros de tracção total e motor a gasolina. O V8 de 5 litros de cilindrada surge montado mais baixo e atrás do eixo dianteiro (baixando o centro de gravidade), contando ainda com suspensões de maior curso. A Hilux está também 65 kg mais leve. Nasser Al-Attiyah (QAT) volta a ser o chefe de fila, mas Giniel de Villiers (RSA) e Bernhard ten Brinke (NDL) também sabem o que é preciso fazer para ser veloz.

A Mini ganhou quatro vezes consecutivas entre 2012 e 2015. Os dois últimos anos foram difíceis para o All 4 Racing, levando a X-Raid a apostar também num buggy de duas rodas motrizes, tal como a Peugeot. O motor do novo Mini John Cooper Works Buggy continua a ser o diesel da BMW, agora montado em posição central/posterior. A carroçaria foi estudada com vista a melhorar a refrigeração da mecânica e as suspensões têm curso suficiente para ultrapassar qualquer obstáculo. As vias ficam-se pelos 2200mm, pensando na mudança de regulamento para 2019 onde essa será a largura máxima. Mikko Hirvonen (FIN), Yazeed Al-Rajhi (SAU) e Bryce Menzies (EUA) optaram pelo novo buggy, enquanto Nani Roma (ESP) e Orlando Terranova (ARG) continuam com os antigos Mini 4×4. Todos estes pilotos têm reais chances de, pelo menos, chegar ao pódio.

Carlos Sousa acelera pela 17ª no Dakar. Desta vez conduz um Renault Duster . O piloto portguês faz equipa com o navegador Francês Pascal Maimon, que venceu a prova em 2002 ao lado do Japonês Hiroshi Masuoka.

Percebe-se que os demais apostam, sobretudo, em alcançar o Top 10. É o caso do português Carlos Sousa, grande especialista desses feitos (12 vezes nos 10 primeiros), que regressa ao Dakar depois de dois anos de ausência para guiar um dos dois Renault Duster – o outro estará uma vez mais entregue a Emiliano Spataro (ARG). Martin Prokop (CZE) gostava de fazer um pouco melhor que o 11º posto de 2017, regressando com o Ford F150, bem diferente do usado Marco Bulacia (BOL), que tem o mesmo objectivo.

O Borgward de Nicolas Fuchs (PER), o buggy SsangYong de Oscar Fuertes (ESP) e o Chevrolet de Sebastian Guayasamin (ECU) são outros carros com chancela oficial, mas mais facilmente veremos na luta pelo top 10 os Mini de Jacub Przygonski (POL) e Boris Garafulic (CHL), navegado pelo português Filipe Palmeiro, os Toyota Overdrive de Lucio Alvarez (ARG) e Ronan Chabot (FRA), o super-buggy Jefferies dos irmãos gémeos Tom e Tim Coronel (NDL) ou até o buggy Sodicars do veterano Eric Bernard (FRA). Já a dupla nacional André Villas-Boas/Rúben Faria, com a Toyota Hilux que deu o título na Taça do Mundo de Todo Terreno 2017 a Nasser Al-Attiyah, acreditam que, sobretudo, podem ser os melhores estreantes.

Motos: 17ª para a KTM?

Desde 2001, em 17 edições consecutivas do Dakar, a KTM nunca perdeu nas motos. Este ano, a marca austríaca volta a ser a principal favorita com a nova 450 Rally Factory, no papel ainda mais eficaz. O bloco do motor foi trabalhado para garantir mais potência e binário, no que é ajudado por um novo sistema de injecção e filtro de ar. O quadro está mais leve, para melhorar a agilidade e a estabilidade, enquanto o braço oscilante e a suspensão posterior foram redesenhados com o mesmo objectivo. Nada foi deixado ao acaso, até a carenagem dianteira, pensada para facilitar a visibilidade quando os pilotos rodam em posição vertical. Sam Sunderland (GBR) defende o ceptro, enquanto Toby Price (AUS) quer recuperar o que alcançou em 2016. Juntam-se Matthias Walker (AUT) e Antoine Meo (FRA). O único ponto fraco pode ser uma eventual luta interna. Mas se falharem as motos oficiais, Farres Guell (ESP), Stefan Svitko (SVK), Juan Carlos Salvatierra (BOL) e Olivier Pain (FRA) são também capazes de brilhar.

A Honda retocou a CRF 450 Rally e acredita que é desta que o esforço continuado desde o início desta década vai ter a justa paga. Se a lesão de Paulo Gonçalves, ainda em dúvida para o rali, surge como uma contrariedade, Joan Barreda (ESP), Ricky Brabec (EUA), Kevin Benavides (ARG) e Michael Metge (FRA) têm muitos argumentos. Pode ser que o jejum de vitórias desde 1989 tenha um ponto final.

Há mais candidatos nas duas rodas. A começar pela Yamaha, apesar da ausência do chefe de fila “natural” – o português Hélder Rodrigues, em recuperação de uma operação ao joelho. A marca dos três diapasões aposta nas renovadas WR450F (agora chamadas World Raid Teneré), onde a nova forquilha de 52mm é a alteração mais visível. As motos vão estar entregues a Adrien Van Beveren (FRA), Franco Caimi (ARG), Rodney Fagotter (AUS), Alessandro Botturi (ITA) e Xavier de Soultrait (FRA), todos creditados com boas exibições no Dakar.

Esquecer as Husqvarna FR450 oficiais será um erro. A moto é, basicamente, umas KTM disfarçada e por isso com as mesmas novidades que a 450 Rally Factory. Pablo Quintanilla (CHL) é o chefe-de-fila, mas há que contar com o estreante Andrew Short (EUA). Erro será, também, descartar as hipóteses da Sherco TVS, com as 450 SEF-R Rally. A equipa gerida por David Casteu tem em Joan Pedrero (ESP) e Adrien Metge (FRA) dois candidatos. O mesmo se passa com as indianas Hero Speedbrain 450 Rally, onde o português Joaquim Rodrigues jr. é o líder numa formação que conta com Santosh Shivashankar (IND) e Oriol Mena (ESP). Há ainda as GasGas oficiais (outras KTM “travestidas”, mas modelo 2017), com Christian Espana (AND) e Johnny Aubert (FRA) a apontarem a um Top 10… tal como uma trintena de outros pilotos, entre eles o português Fausto Mota, a espanhola Laya Sanz, com a quinta KTM oficial, a única senhora capaz de desafiar o domínio masculino, ou a vedeta das bajas americanas, Mark Samuels, que se estreia com a Honda da equipa sul-americana MEC, mas pode ser um eventual substituto de Paulo Gonçalves na formação oficial, caso o português não alinhe.

Camiões: Duelo Kamaz / Iveco com três “árbitros”

Desde que o Dakar “imigrou” para a América do Sul as vitórias nos camiões têm sido divididas entre Kamaz (7) e Iveco (2). Nesta 10ª edição no hemisfério sul, as marcas russa e italiana voltam a estar no lugar de destaque entre os candidatos. Os russos procuram o 15º triunfo, sendo Eduard Nikolaev (vencedor em 2017 e 2013) e Dimitry Sotnikov os nomes mais fortes do construtor das estepes. Federico Vilagra (ARG), Artur Ardavichius (KAZ) e Ton Van Genugten apresentam-se como os melhores Iveco face à ausência do holandês Gerard De Rooy, que decidiu saborear as delícias da Africa Eco Race.

O duelo terá três grandes árbitros: os Tatra dos checos Ales Loprais e Martin Kolomy, dois camiões diferentes entre si, mas igualmente competitivos, mas também o Renault de Martin Van den Brink, que ardeu demasiado cedo em 2017, e os bielorrussos da Maz, com Aleksandr Vasilevski e Siarhei Viazovich capazes de grandes resultados, sobretudo no terreno mais duro. O Liaz de Martin Macik (CZE) é outro camião com apoio oficial, tal como o Hino de Teruhito Sugawara, mas dificilmente conseguirão melhor que um Top 10. Refira-se a presença de três portugueses no papel de navegador ou mecânico. Paulo Fiúza, José Martins e Marco Moreira, elevando para 13 o número total de lusitanos inscritos.

Quads e UTV: apostas variadas

Nos quads, Sergey Kariakin (RUS) parte com vontade de bisar. A Yamaha, que ganhou sempre a classe (nove triunfos), volta a ser a marca com mais candidatos, sendo o Honda de Walter Nosiglia (BOL) e os Can-Am de Daniel Macuzzo (ARG) e Kamil Wisniewski (POL) os únicos que, no papel, podem dar luta aos Raptor 700. Ignacio Casale (CHL), Pablo Coppeti (ARG), Rafal Sonik (POL), Nelson Sanabria (PER) e Axel Dutre (FRA) apresentam-se como os outros “Yamaha boys” capazes de andar na luta pelo triunfo.

Na categoria UTV, que se estreou como classe individual em 2017, a dupla portuguesa Pedro Mello Breyner/Pedro Velosa (Yamaha) parte com vontade de conseguir um bom resultado, ainda que no papel os Can-Am pareçam mais competitivos, sobretudo os da South Racing entregues ao ex-piloto Mitsubishi Brasil, Reinaldo Varela (BRA), e a Leo Larrauri (ARG). 

 

Dakar 2018 – Percurso

Peru vai trazer mais espetáculo

O regresso do Peru, que deixou boas recordações em 2012 e 2013, é a mais marcante novidade no desenho da edição 2018 do Dakar. A capital do país, Lima, será palco da partida. Durante a primeira semana as enormes dunas do deserto, sobretudo nas zonas de Pisco e San Juan Marcona (com a espectacular saída em linha, na praia), têm tudo para causar muitas baixas no pelotão. Sendo difícil decidir aí os vencedores, vão deixar muitos possíves candidatos sem hipótese de continuar a sê-lo.

Segue-se a altitude da Bolívia, com algumas zonas acima dos 4000 metros. Será já em terra de Evo Morales que irá decorrer a última das primeiras seis etapas, antes do dia de descanso, uma vez mais para um banho de multidão em La Paz. A segunda semana começa com as duas etapas maratona (sem assistência “pesada”) na região de Uyuni, com mais dunas, mas estas acima dos 3500 metros.

Para fechar, a Argentina recebe os concorrentes em vários tipos de terreno e quase sempre com muito calor. As super-etapas nas dunas de Belén e Fiambalá deverão ser o palco de todas as decisões. Se tal não acontecer, ficam os três últimos dias, com fesh-fesh (areia quase farinha), os rios (leitos secos, com sulcos enormes) e as especiais tipo rali convencional para os “ajustes” finais nas classificações gerais. Um só desejo: que as chuvas do último ano não levem a várias anulações na Bolívia e na Argentina. Isto para que a edição 2018 do Dakar seja a festa que o 40º aniversário da prova criada por Thierry Sabine merece.

Texto: João Carlos Costa

(Comentador de desportos motorizados do Eurosport)

Resumos diários do Dakar no Eurosport 1 de 6 a 20 de janeiro.

 

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